segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Marés da Guerra



Capítulo 1:

 Era quase a hora do crepúsculo, e os tons levemente cálidos da tarde se esvaíam em nuances mais frias de azul e púrpura. O ar estava salpicado de flocos rodopiantes e afiados de neve, que circulavam alto sobre Gelarra. Outras criaturas tremeriam e protegeriam os olhos, afofariam o pelo ou as penas, ou se embrulhariam melhor nos mantos. O grande dragão azul, cujas asas batiam num ritmo lento, não se incomodava com coisas como neve ou frio. Ele tinha alçado voo em busca do toque gélido e cristalino daquele vento frio na esperança, talvez fútil, de que assim conseguisse limpar os pensamentos e acalmar o espírito.
 Kalecgos, mesmo sendo jovem do ponto de vista dos dragões, testemunhara mudanças tremendas ocorridas ao seu povo. Os dragões azuis já tinham sobrevivido a tantos percalços, assim lhe parecia. Tinham perdido duas vezes o amado Aspecto Malygos; primeiro para a insanidade, que durou milênios, e então, finalmente, para a morte. Era irônico e comovente que os azuis, os  intelectuais e guardiões da magia arcana no mundo de Azeroth, fossem a Revoada mais afeita à ordem e à calma e, portanto, os dragões menos capazes de lidar com tanto caos.

 Porém, mesmo em meio a todo o tumulto, seus corações tinham permanecido leais. O espírito da Revoada Dragônica Azul não tinha escolhido o caminho linha-dura representado por Arygos, o falecido herdeiro de sangue de Malygos, preferindo a trilha mais gentil e alegre que lhes foi oferecida por Kalecgos. E essa escolha provou ser a decisão correta. Na realidade, Arygos planejava trair a Revoada. O herdeiro prometera entregar todo o seu povo ao maligno e incrivelmente insano Asa da Morte, assim que eles lhe jurassem fidelidade. Só que os azuis acabaram se unindo aos vermelhos, verdes e bronzes, e também a um orc muito extraordinário, na luta para derrotar o monstro.
 Mas, mesmo enquanto planava naquele céu cada vez mais escuro, sobrevoando a neve que ganhava cor de lavanda, Kalecgos sabia que, com aquela vitória, as Revoadas tinham também se sacrificado, de certo modo. Não havia mais Aspectos, mesmo que os dragões que antes haviam assumido essa função ainda estivessem vivos. A derrota de Asa da Morte tinha exigido tudo deles e,  ao final daquela batalha, as habilidades dos Aspectos foram exauridas quando Alexstrasza, Ysera, Nozdormu e Kalecgos despejaram todo o poder que tinham naquele momento crucial do conflito. Os Aspectos tinham sido criados para executar aquele único ato. Com esse objetivo cumprido, a missão de suas vidas tinha chegado ao fim.
 Havia um efeito menos direto, também. As Revoadas sempre viveram seguras dos papéis que desempenhavam, tinham uma firme compreensão do próprio propósito. Entretanto, agora que o momento para o qual elas haviam sido criadas tinha chegado e passado, o que lhes restava? Muitos azuis já haviam partido. Alguns buscaram a bênção de Kalecgos antes de deixar o Nexus, pois ele continuava sendo o seu líder, mesmo despido dos poderes de um Aspecto. Disseram a ele que se sentiam inquietos e que queriam descobrir se ainda haveria algum outro lugar no mundo onde suas habilidades seriam apreciadas. O resto tinha simplesmente ido embora; estavam lá um dia, ausentes no outro. Aqueles que permaneceram ficavam cada vez mais agitados, ou se rendiam a um estado abúlico de espírito.
 Kalecgos mergulhou e fez uma curva, deixando o ar frio acariciar-lhe as escamas. Em seguida, abriu as asas e pegou impulso numa corrente ascendente, com pensamentos novamente sombrios e infelizes.
 Por muito tempo, mesmo durante a loucura de Malygos, os azuis tiveram um norte. A questão do que deveria ser feito agora tinha sido pensada e, às vezes, sussurrada. Kalecgos não conseguia deixar de se questionar se não teria fracassado para com a Revoada. Será que as coisas realmente haviam sido melhores sob a liderança de um Aspecto insano? A resposta óbvia era não, porém... Porém.
 Kalecgos fechou os olhos, não pela neve cortante, mas por causa da dor no coração.
 Os corações deles acreditaram na minha liderança. Eu acreditava, então, que os liderava bem, mas... E agora?Onde se encaixariam os dragões azuis, ou dragões de qualquer outra Revoada, num mundo no qual a Hora do Crepúsculo tinha sido evitada, mas no qual resta apenas uma noite sem fim para nosso povo?
 Ele se sentia absolutamente só. Tinha sempre considerado a si mesmo como sendo provavelmente a escolha mais estranha de todas para liderar a Revoada Dragônica Azul, já que ele jamais se sentira um "típico" dragão azul. Enquanto voava, desanimado e cada vez mais preocupado, Kalecgos percebeu que havia pelo menos uma pessoa capaz de compreendê-lo melhor que qualquer outra. O dragão guinou para a direita e bateu as asas, voltando ao Nexus.
 Kalec sabia onde poderia encontrá-la.

 Kirygosa, filha de Malygos, irmã de ninhada de Arygos, encontrava-se na sua forma humana, sentada numa das mágicas e luminosas plataformas flutuantes que circundavam o Nexus. Ela estava apenas com um vestido comprido e largo, os cabelos negros azulados soltos e recostada numa das árvores brancas e reluzentes que brotavam em algumas das plataformas. Acima, o dragões  azuis circulavam como já faziam por séculos, patrulhando sem cessar, mesmo que aparentemente não existissem mais ameaças, não mais. Kirygosa parecia ignorá-los, com um olhar solto e perdido. A dragonesa parecia estar imersa em pensamentos, mas Kalecgos não saberia dizer o que ocuparia a mente dela.
 Mesmo assim, ela o acompanhou com o olhar enquanto ele se aproximava, e sorriu de leve ao perceber que ele não era mais um dos guardiões do lar da Revoada. O dragão pousou na plataforma e assumiu sua forma de meio-elfo. O sorriso de Kiry se alargou e ela estendeu a mão. Kalec a beijou afetuosamente e se posicionou ao lado da dragonesa, esticando as longas pernas e unindo as mãos atrás da cabeça, num esforço para parecer casual.
  -Kalec-saudou ela calorosamente.- O que o traz ao meu poleiro de ponderações?
  -É isso que isso aqui é?
  -Pelo menos para mim. O Nexus é o meu lar, por isso não gosto de me afastar muito, mas é meio difícil ficar sozinha lá dentro. - Kity se virou para Kalec. - Então eu venho aqui e pondero. Bem como você parece estar interessado em fazer.
 Kalec suspirou, percebendo que sua tentativa de parecer despreocupado não tinha enganado aquela amiga perceptiva que ele considerava como irmã.
  - Eu estava voando - comentou ele.
  - Você não pode voar para longe dos seus deveres ou pensamentos - respondeu Kirygosa delicadamente, estendendo a mão para apertar o braço do amigo. - Você é o nosso líder, Kalec. E nos guiou bem. Arygos teria destruído a Revoada, e o mundo inteiro em seguida.
 Kalec franziu o cenho, lembrando a terrível visão que Ysera, outrora a Aspecto Dragônico Verde, tinha compartilhado com ele não havia tanto tempo. Seria a Hora do Crepúsculo, uma Azeroth completamente despida de qualquer forma de vida. Desde a grama e os insetos até os orcs, elfos e humanos, desde todas as criaturas do ar, do mar e da terra até os próprios Aspectos, que tinham sido assassinados pelos seus poderes únicos. Asa da Morte também morrera então, com o resto de Azeroth, empalado como um troféu grotesco no pináculo do Templo do Repouso das Serpes. Kalecgos estremeceu ainda perturbado pela lembrança da voz melodiosa, porém sofrida, de Ysera enquanto ela narrava a visão.
  - Ele teria feito tais coisas - admitiu Kalec, concordando apenas parcialmente.
 Os olhos azuis dela buscaram os dele.
  - Kalec, querido, você sempre foi... diferente.
 O bom humor foi atiçado em Kalecgos apesar dos sentimentos sombrios predominantes, e ele fez uma careta boba, torcendo as belas feições meio-élficas. Kirygosa riu.
  - Viu?
  - Ser diferente nem sempre é bom - retrucou ele.
  - Mas é isso que você é, e foi por causa das suas diferenças que a Revoada o escolheu.
 O bom humor desmoronou e ele a fitou, sombrio.
  - Porém, minha querida Kirygosa - argumentou ele, entristecido -, você acha que a Revoada me escolheria novamente, neste momento?
 A verdade sempre fora um dos ideais mais caros a Kirygosa. Ela olhou o amigo, buscando uma resposta que fosse verdadeira e reconfortante, sem sucesso. O coração de kalec se partiu. Se aquela amiga tão querida, sua doce irmã de espírito, não encontrava nenhum encorajamento que pudesse lhe oferecer, então os temores dele seriam mais reais do que suspeitara.
  - O que realmente acho é que...
 Kalechos jamais descobriria o que ela achava, porque foram interrompidos por um súbito e terrível som: os gritos dos dragões azuis em desespero e angústia. Mais de uma dúzia de dragões emergiam do Nexus, voando e mergulhando a esmo. Um deles se separou abruptamente dos companheiros, indo direto até Kalecgos. O líder da Revoada se levantou num salto, completamente pálido. Kiry ficou de pé também, cobrindo a boca com a mão.
  - Lorde Kalecgos! - gritou Narygos. - Estamos arruinados! Está tudo perdido!
  - O que está acontecendo? Acalme-se, fale devagar, meu amigo! - pediu Kalec, mesmo que o próprio coração se debatesse dentro do peito por conta do puro terror e pânico que emanavam de Narygos. O outro dragão era geralmente tranquilo e tinha sido um dos azuis de mente mais aberta durante o período tenso em que Kalec e Arygos disputavam o papel de Aspecto. Vê-lo tão fora de si alarmava Kalecgos.
  - A Íris Focalizadora! Se foi!
  - Se foi? Como assim "se foi"?
  - Foi roubada!
 Kalec encarou o amigo, doente de horror, sem conseguir pensar. A Íris Focalizadora não apenas era um item de imenso poder arcano, mas também tinha um valor incalculável para os azuis. O objeto pertencera a Revoada desde tempos imemoriais. Como tantos outros itens dessa categoria, a Íris em si não era nem boa nem má, mas poderia ser empregada para fins tanto benevolentes quanto malignos. E isso já acontecera. No passado, ela tinha desviado a energia arcana de Azeroth para animar uma criatura horrenda que jamais deveria ter vivido.
 E pensar que ela agora estava perdida para os azuis, perdida e sendo controlada por aqueles que poderiam usar seus poderes para...
 - Foi exatamente por isso que a mudamos de lugar - murmurou Kalecgos.
 Há meros dois dias, num esforço para evitar este exato acontecimento, Kalecgos, acompanhado de vários outros, tinham recomendado que retirassem a Íris Focalizadora do Olho da Eternidade para um esconderijo seguro. O dragão recordou a argumentação que apresentou aos azuis: Muitos de nossos segredos já são conhecidos, e cada vez mais membros da nossa Revoada nos deixam todos os dias. Há quem possa se sentir encorajado por isso a cometer o impensável! O Nexus há foi violado antes, e a Íris Focalizadora usada para propósitos nefastos. Precisamos mantê-la a salvo... E, como muitos em Azeroth sabem agora que ela está abrigada no Nexus, então não resta dúvidas de que, um dia, ficará vulnerável de novo.
 E esse dia tinha chegado, mas não da forma que Kalec antecipara. Os azuis decidiram que um pequeno grupo a levaria ao Mar Congelado, diante do litoral de Gelarra, onde ela ficaria segura, ou pelo menos assim pensara o dragão, enclausurada em gelo encantado. A Íris estaria escondida de forma apropriada, um simples pedaço de água congelada que, na realidade, era algo tão incrível.
 Kalec se esforçou em ficar calmo.
  - Por que você acha que ela foi roubada? - Por favor, pensou o dragão, implorando a sabe-se lá qual poder superior, por favor, permita que isso tudo seja apenas um mal-entendido.
  - Não recebemos nenhuma notícia de Veragos ou dos outros, e a Íris Focalizadora não se encontra onde deveria estar.
 Alguns dos azuis, aqueles que tinham passado mais tempo com o artefato ao longo de tantos séculos, estavam particularmente sintonizado a ele. Kaleccgos lhe pedira que acompanhassem o progresso da mudança por meio dessa conexão. Aquela altura, a Íris Focalizadora deveria estar no fundo do oceano, forte e misticamente protegida, e aqueles que a transportaram deveriam estar de volta. Havia possibilidades muito menos terríveis, mas Kalecgos já estava na sua forma de dragão, voando velozmente até o Nexus, com Kirygosa e Narygos logo atrás.
 Porque ele sabia, mesmo sem entender como, que as outras possibilidades não passavam de falsas esperanças. E sabia também que dois dos piores desastres da história da Revoada Dragônica Azul tinham acontecido num espaço de poucos meses, enquanto ele fora primeiro o Aspecto e, agora, o líder.

 Kalecgos aterrissou no interior frio e cavernoso do Nexus e se deparou com o caos absoluto.
 Todos pareciam falar ao mesmo tempo. Cada traço de seus imensos corpor reptilianos gritava medo e raiva. Alguns dos dragões estavam estranhamente encolhidos e imóveis, e eram esses que deixavam Kalecgos ainda mais alarmados. Quão poucos deles restavam, pensou o líder da Revoada, quão poucos tinham ficado. E não havia dúvidas de que até mesmo esses poucos agora desejavam ter partido também, antes que esta ruína os alcançasse.
 Mantendo sua forma real, Kalecgos deu o comando para que todos se calassem. Apenas alguns obedeceram. Os outros continuaram gritando uns com os outros.
  - Como isso pôde acontecer?
  - Deveríamos ter mandado mais dragões; eu disse que deveríamos ter mandado mais!
  - Essa ideia era idiota dede o começo. Se ela tivesse ficado aqui, poderíamos vigia-lá permanentemente!
 Kalecgos bateu a cauda no chão.
  - Silêncio! - urrou ele, a palavra solitária ecoando pela câmara.
 A Revoada inteira parou de falar ao mesmo tempo, e várias cabeças se viraram bruscamente para contemplar o líder. Kalec percebeu nas expressões deles um leve lampejo de esperança de que aquilo tudo seria apenas algum mal-entendido e que o líder de alguma forma faria tudo ficar bem. Outros lhe cravaram olhares sinistros e taciturnos, claramente culpando Kalecgos por tudo o que acontecera.
 Finalmente de posse da atenção completa de todos, Kalecgos começou a falar:
  - Primeiro vamos determinar o que sabemos com segurança, sem nos perdermos em especulações e desvarias - comandou o dragão. - A Revoada Azul não se rende a medos nascidos de imaginações febris.
 Alguns dos outros baixaram a  cabeça ao ouvir isso, com as orelhas um pouco caídas de vergonha. Outros se eriçaram. Kalec lidaria com estes mais tarde. Era necessário estabelecer os fatos.
  -Foi o primeiro a sentir o acontecido - afirmou Teralygos, um dos mais velhos azuis que tinham escolhido ficar. Antes, Teralygos havia se aliado ao rival de Kalec. Arygos. Porém, dede que a traição de Arygos e sua subsequente morte haviam sido reveladas, Teralygos e quase todos os outros tinham mantido sua lealdade a Kalec, mesmo após a perda das habilidades de Aspecto.
  - Há muito você é o guardião do nosso lar, Teralygos, e grande é a gratidão que todos nós lhe devemos - declarou Kalec, com imenso respeito - O que você sentiu?
  - O caminho que Veragos e os outros deveriam seguir não era reto como uma flecha - contou Teralygos.
 Kalec assentiu com a cabeça. Havia sido decidido que seria óbvio demais enviar vários dragões azuis transportando um objeto misterioso, voando em linha reta até seu destino. Em vez disso, optaram pela jornada em forma bípede. Demoraria mais e o caminho seria mais longo, mas atrairia muito menos atenção de forças hostis. E, se fossem de fato atacados enquanto caminhassem, bastaria um piscar de olhos para mudar das silhuetas aparentemente humanoides para as verdadeiras formas. Cinco dragões deveriam ter sido mais que suficientes para qualquer indivíduo ou criatura que estivesse se esgueirando, pensando em emboscar aquilo que parecia ser uma simples caravana.
 Mesmo assim...
  - Conheço cada curva e treta daquela rota - continuou Teralygos. - Eu e os outros; Alagosa e Banagos; seguimos cada passo dado por nossos irmãos e irmãs. E, até pouco menos de uma hora atrás, estava tudo bem.
 A voz do dragão, roufenha com a idade, fraquejou com a última palavra. Kalec manteve o olhar fixo em Teralygos, mas sentiu a cabeça de Kirygosa tocar seu ombro, num gesto reconfortante.
  - O que aconteceu então?
  - Eles pararam. Antes disso, o progresso não cessou nem por um momento. E, após a pausa, começaram a se mover outra vez, não mais para o oeste, mas para o Mar Congelado... para sudoeste, a uma velocidade muito superior àquela com que a Íris se movera antes.
  - E onde foi que ela parou?
  -Às margens do mar. Agora ela foi bem longe ao sul. E quanto mais distante fica - contou Teralygos, com voz triste -, menos eu posso senti-la.
  - Leve alguém com você e vá até a costa - ordenou Kalec, virando-se para Kirygosa. - Tenha cuidado. Descubra o que aconteceu por lá.
 Ela assentiu com a cabeça, falou com Banagos e Alagosa e, um instante depois, os três alçaram voo, com largas batidas de asa levando-os para longe do Nexus. Pelo ar, chegariam muito rapidamente ao local. Não demorariam muito para voltar.
 Ou assim esperava Kalec.

  - Ah, não - sussurrou Kirygosa. Ela hesitou por um momento, pairando, tentando antecipar qualquer ameaça oculta. Não pressentiu nada. O inimigo partira havia muito. Só restavam as evidências de seus atos.
 A dragonesa recolheu as asas e pousou graciosamente, dobrando o longo e sinuoso pescoço em tristeza.
 O lugar antes fora uma vastidão banal, mesmo que nada hospitaleira, de brancura imaculada; pura, limpa, calmante em sua simplicidade. Um visitante não veria nada além de neve, ou do cinza amarronzado ocasional de uma rocha. Em alguns pontos, pequenos campos de areia se estendiam até o gélido e faminto oceano.
 A neve tinha se tornado uma lama escarlate. Havia feridas negras e brutais no chão congelado, como se relâmpagos tivessem violado o gelo outrora coberto de branco. Penedos tinham sido desenterrados do chão ou arrancados dos penhascos e atirados a grandes distâncias. Alguns desses rochedos também estavam tingidos do vermelho vivo que ainda secava. Kirygosa e os outros farejaram o ar, captando traços do fedor de atividade demoníaca, o ranço de cobre do sangue, e a fragrância única e indescritível de inúmeras outras magias.
 Armas mais mundanas haviam sido usadas também; os olhos aguçados da dragonesa detectaram marcas na terra provocadas por lanças, e aqui e ali havia flechas enterradas até o penacho.
  - As raças menores - grunhiu Banagos. Com o coração dolorido, Kirygosa não ralhou com ele pelas palavras insultantes como poderia ter feito. Ele tinha razão, mesmo que ainda fosse impossível determinar quais raças, ou mesmo a qual facção elas pertenciam.
 Kirygosa assumiu sua forma humana. Ajeitando uma longa mecha de cabelos negro-azulados atrás da orelha, aproximou-se respeitosamente dos corpos dos irmãos mortos. Cinco haviam partido para proteger a Íris Focalizadora. Cinco tinham sido mortos, dando suas vidas na tentativa de completar a tarefa. O sábio e tranquilo Uragos, o mais velho de todos, líder do grupo. Rulagos e Rulagosa, irmãos de ninhada, cujas formas humanas eram de gêmeos. Tinham tombado juntos, irmão e irmã, próximos um do outro e na mesma posição, com flechas cravadas nas gargantas. Tão semelhantes em morte quanto em vida. As lágrimas inundaram os olhos de Kirygosa enquanto se virava para  contemplar  Pelagosa. Kiry conseguiu reconhecer a dragonesa apenas pelo seu tamanho diminuto. Ela sempre fora uma das menores azuis, jovem (de acordo com a contagem dos dragões), mas com um dom arcano que ultrapassava seus tenros anos. Seus algoz, quem quer que fosse, a abatera com magia, e ela estava carbonizada além do ponto do reconhecimento.
 Lurugos provavelmente tinha resistido por mais tempo, considerando a distância entre seu corpo e o local dos assassinatos. Calcinado congelado, parcialmente submerso, crivado de flechas como se fosse uma almofada de alfinetes por todos os ombros e pernas, não desistira. Kirygosa desconfiou que ele poderia até ter lutado por mais uma ou duas batidas do coração após sua cabeça ter sido separada do corpo por um golpe preciso de uma espada afiada.
 Banagos, em forma humana, aproximou-se de Kirygosa e lhe apertou o braço. Ela rapidamente cobriu a mão do amigo com a própria.
  - Conheço muito pouco dessas raças menores - afirmou Banagos, - Vejo todo tipo de armas aqui, além de vestígios do uso de magica: tanto demoníaca quanto arcana.
  - Pode ter sido qualquer raça - respondeu Kiry.
  - Então nossa ideia de matar todos eles talvez tenha sido a correta, afinal - retrucou Banagos, rouco de dor, com os olhos avermelhados de lágrimas contidas. Ele amara a pequena Pelagosa, e eles teriam sido um casal quando ela alcançasse a maturidade.
  - Não - exclamou Kiry. - Esse é o sentimento típico daqueles que não param para pensar, Banagos, como você sabe muito bem, como Pelagosa também sabia. Nem "todos" eles fazem isso, assim como nem "todos" os dragões saem por aí massacrando as raças mais jovens por esporte. Nós compreendemos muito bem por que isto foi feito, e não foi por algum ódio contra o nosso povo. O objetivo era obter a Íris Focalizadora para algum propósito específico.
  - Cinco dragões - ofegou Alagosa. - Cinco de nós. Cinco dos melhores. QUem poderia ser poderoso o suficiente para fazer isso?
  - É o que precisamos descobrir - argumentou Kirygosa. - Banagos, retorne ao Nexus com estas tenebrosas notícias. Alagosa e eu ficaremos aqui e... cuidaremos dos restos dos nossos irmãos.
 Kiry pretendia poupar Banagos de mais sofrimento, mas o dragão balançou a cabeça
  - Não. Ela teria sido minha ocmpanheira. Eu... cuidarei dela. E dos outros. Você é amiga de Kalecgos. É melhor que ele ouça as novas de você, e logo.
  - Como quiser - concordou Kiry, com gentileza.
 Ela contemplou uma última vez os cadáveres dos azuis, presos em formas que a maioria deles desprezava. Ela fechou os olhos uma última vez e, então, decolou num salto, girando no ar e se dirigindo de volta ao Nexus. Quem seria forte o bastante para fazer aquilo? E com que objetivo?
 Kiry não sabia quase nada, só o suficiente para confirmar os piores temores acerca do grupo que partira na jornada. Ela esperava que, naquele meio-tempo, Kalec tivesse descoberto mais.

 Kalecgos sabia que, a cada segundo, a Íris Focalizadora se afastava cada vez mais em direção ao sul. E estava se tornando cada vez mais difícil de rastreasr. Ele tinha uma vantagem sobre os outros membros da Revoada. Mesmo que não fosse mais o Aspecto Dragônico Azul, ainda liderava os irmãos. Essa conexão à Revoada somada aos ecos restantes do que ele outrora já fora parecia fortalecer a ligação entre Kalec e a Íris. Quando Teralygos disse que mal conseguia sentir o artefato, Kalecgos fechou os olhos e respirou fundo três vezes. VIsualizou a Íris na própria mente, concentrando-se nela, sentindo sua presença e...
 E lá estava ela.
  - A Íris se encontra na Tundra Boreana, não é? - indagou o líder a Teralygos com os olhos ainda fechados.
  - Sim, isso mesmo, e... - As palavras foram interrompidas por um grito áspero e curto. - Ela se foi!
  - Não, ainda não - declarou Kalecgos. - Ainda consigo senti-la.
 Muitos dragões suspiraram em alívio.
  - Eles foram todos assassinados, Kalecgos, todos os cinco - sussurrou uma voz feminina.
 Kalec abriu os olhos e observou mortificado enquanto Kiry relatava o que Banagos, Alagosa e ela tinham testemunhado.
  - E você não sabe dizer se foram humanos ou elfos, orcs ou goblins? - indagou o líder quando a amiga terminou. - Nenhum trapo de estandarte ou tipo específico de flecha?
  - As cores que encontramos eram aleatórias - explicou Kiry, balançando a cabeça. - Não havia pegadas. A neve tinha derretido demais, e foram espertos o bastante para evitar a areia mais macia e não deixar rastros de sangue nas pedras. Tudo que sabemos, Kalec, é que algum grupo provavelmente sabia onde encontrá-los, eram suficientemente fortes para massacrar cinco dragões e escaparam levando a Íris Focalizadora. Quem quer que eles fossem, sabiam exatamente o que estavam fazendo.
 A última frase foi dita em voz baixa. Kalec assentiu com a cabeça.
  - Talvez soubessem. Mas nós também sabemos - declarou Kalec com uma segurança que não sentia realmente. - Eu consigo sentir a direção geral para onde ela está sendo levada. Vou segui-la e trazê-la de volta.
  - Você é o nosso líder, Kalecgos - argumentou Kirygosa. - Precisamos de você aqui!
  - Não, não precisam - discordou o dragão, balançando a a cabeça. - É exatamente porque sou o líder que preciso ir. Chegou a hora de reconhecermos o que vem acontecendo, como a Revoada está se sentindo. Muitos dos nossos irmãos já nos deixaram para vagar pelo mundo. Outrora conhecíamos nossa função nesta terra, o que não acontece mais, e nosso item mágico mais precioso, que é tanto uma ferramenta quanto um símbolo, foi roubado, deixando bons dragões mortos como recordação. Meu dever é guiar e proteger vocês e... eu não o fiz. - Era doloroso admitir. - Fracassei, pelo menos nesta situação, e talvez em outras. Não precisam de mim aqui, me preocupando e me aborrecendo com o resto de vocês enquanto alguns outros se aventuram, em busca do orbe roubado. Esta é a minha tarefa e, ao executá-la, realmente guiarei e protegerei vocês.
 Os dragões se entreolharam, mas ninguém protestou. Sabiam que aquele era o caminho certo. Kalecgos tinha dito tudo aquilo com total sinceridade. O fracasso fora dele, a recuperação do artefato era seu dever. Mas o que ele não disse foi que ele queria ir. Sentia-se mais confortável lidando com as raças mais jovens do que ali, supostamente liderando a Revoada. O dragão olhou nos olhos de Kiry, e ao menos ela pareceu entender a emoção subjacente e aprová-la.
  - Kirygosa, filha de Malygos - proclamou Kalec. - Aproveite a sabedoria de Teralygos e dos outros, e seja minha voz enquanto eu estiver fora.
  - Ninguém pode realmente ser sua voz, meu amigo - respondeu Kiry, gentilmente. - Mas farei o que for possível. Se existe alguém capaz de encontrar a Íris Focalizadora neste mundo tão imenso em que vivemos, esse alguém é você, aquele que melhor conhece Azeroth dentre todos os azuis.
 Não havia nada mais a ser dito. Em silêncio, Kalecgos deu um salto e voou por aquele dia frio e cheio de neve, seguindo o leve puxão que o atraía sussurrando por aqui, por aqui. Kirygosa dissera que Kalec conhecia Azeroth melhor do que qualquer outro dragão azul. Ele só poderia torcer para que estivesse certa.





Estou postando o primeiro capítulo do livro World of Warcraft: Marés da Guerra, para os interessados em compra-lo, não irei postar todos os capítulos por motivos de direito autoral.

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